A gaveta das pequenas lembranças...

Minha avó tinha uma gaveta que ninguém podia abrir sem pedir. Não porque escondesse algo importante, mas porque ali estavam reunidas coisas que, para ela, tinham valor: cartas antigas, fotografias, botões, fitas, receitas e pequenos objetos que já não serviam para nada. Pessoalmente... amava aquela gaveta. Quando minha avó permitia, sentávamos juntas à mesa de madeira e abríamos os compartimentos um por um.

Ela contava histórias sobre cada objeto. Um botão pertencia a um vestido usado em uma festa. Uma fita havia sido presente de uma amiga. Uma fotografia mostrava pessoas que eu nunca conheci. E cada coisa parecia abrir uma porta para uma época que não era minha, mas que, de algum modo, também me pertencia. 

Após ela ter falecido, passei muito tempo sem coragem de abrir a famosa gaveta. Quando finalmente o fiz, percebi que o tempo não havia levado tudo. Guardo tudo que estava naquela gaveta até hoje. Não porque precise daqueles objetos, mas porque certas lembranças precisam de um lugar físico para continuar existindo. Por isso, eu ainda não consiga jogar fora minhas cartas antigas. Há coisas que parecem inúteis para quem olha de fora, mas que carregam dentro de si uma vida inteira.

C.M.Martins💖

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