O que a memória escolheu guardar...
Nem tudo o que importa foi fotografado.
Há dias que passaram sem um registro sequer, mas que ainda podem ser revisitados quando fechamos os olhos. O barulho da chuva contra a janela, uma conversa demorada à mesa, o perfume de alguém que já não está por perto. Naquele tempo, talvez não soubéssemos que estávamos vivendo algo que um dia sentiríamos falta. E por isso não fotografamos.
Confiamos na memória como quem deixa uma carta guardada dentro de uma gaveta. Sem pressa, sem necessidade de provar que aquilo aconteceu. Apenas acreditamos que algumas lembranças encontrariam um lugar dentro de nós. É curioso pensar que fotografamos tanto para não esquecer e, ainda assim, algumas das nossas memórias mais preciosas nasceram justamente longe das câmeras.
Talvez porque certas coisas não precisem de imagem.
A memória possui seus próprios retratos. Ela guarda a luz de uma manhã, o som de uma voz, a textura de uma toalha sobre a mesa, o gosto de uma fruta colhida no quintal, o silêncio confortável de uma casa ao entardecer. E quando o tempo passa, percebemos que algumas lembranças permaneceram apesar de não terem sido fotografadas.
Permaneceram justamente porque pertenciam somente a nós.
Há momentos que não foram registrados em fotografias porque foram registrados de outra maneira: no coração, nos sentidos, nos pequenos detalhes que nenhuma câmera seria capaz de alcançar. Talvez seja essa a delicadeza da memória.
Ela não conserva tudo. Ela escolhe. E, às vezes, aquilo que escolheu guardar é justamente aquilo que nunca pensamos em fotografar.
C.M.Martins.💖
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