O Tempo também fotografa...

Talvez a memória não seja uma fotografia.

Talvez seja uma casa. Uma casa antiga, dessas que guardam marcas nas paredes, cheiro de madeira e objetos que ninguém sabe exatamente por que ainda estão ali. Entramos nela de vez em quando. Basta uma música, uma palavra, uma estação do ano ou o perfume de alguma flor para uma porta se abrir. E então voltamos.

Voltamos a lugares que já não existem da mesma maneira. Encontramos pessoas que mudaram ou partiram. Revisitamos versões de nós mesmos que ficaram para trás.

É nesse instante que percebemos uma coisa curiosa: a memória não apenas guarda o passado. Ela também o transforma.

O que vivemos há vinte anos, talvez não seja exatamente como lembramos. Algumas cores ficaram mais suaves. Algumas dores perderam força. Certos momentos ganharam uma importância que não tinham quando aconteceram. É como se o tempo também fotografasse. Só que sua fotografia é feita de sentimentos.

Uma manhã comum pode se tornar inesquecível muitos anos depois. Uma conversa aparentemente pequena pode permanecer na lembrança enquanto acontecimentos maiores desaparecem. Por isso, talvez não seja necessário registrar cada instante. Há uma beleza especial em viver algumas coisas sem a preocupação de conservá-las:

Sentar à mesa.

Observar a chuva.

Ler algumas páginas antes de dormir.

Ouvir alguém contar uma história pela segunda ou terceira vez.

Caminhar sem destino.

Sentir o cheiro de café vindo da cozinha.

São momentos que parecem pequenos enquanto acontecem. Mas a memória conhece o valor das coisas pequenas. Ela recolhe aquilo que deixamos passar e guarda, em silêncio, o que um dia poderá nos fazer voltar. Porque há coisas que não fotografamos por acreditar que jamais esqueceremos. Há outras que permanecem justamente porque não tentamos aprisioná-las em uma imagem.

Talvez algumas lembranças precisem apenas de espaço para existir, e de tempo para se tornarem eternas. O tempo também fotografa!

C.M.Martins.💖

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