O lugar onde as manhãs demoravam...

Eu costumava acordar antes de todo mundo. Não porque tivesse alguma obrigação, mas porque gostava daquele breve instante em que a casa ainda pertencia ao silêncio. Descia devagar as escadas, abria a janela da cozinha e deixava que a manhã entrasse junto com o sol. A luz atravessava o vidro antigo e pousava sobre a pia, sobre os panos de linho e sobre a jarra de flores que minha mãe colocava ali todas as sextas-feiras.

Ela dizia que uma casa precisava de flores, mesmo quando não havia dinheiro para comprá-las. Então colhia algumas no jardim: margaridas, ramos de alecrim, pequenas flores das mais diversas cores e qualquer outra coisa que estivesse bonita naquela estação. Nunca eram arranjos perfeitos, mas tinham a delicadeza das coisas que não foram feitas para impressionar ninguém.

Hoje, quando penso naquela cozinha, percebo que era ali que minha infância morava. Não nos brinquedos, nem nas fotografias guardadas em caixas, mas naquela luz da manhã, no cheiro de café e na voz de minha mãe perguntando se eu queria mais pão. Algumas casas permanecem dentro da gente para sempre. A minha ficou exatamente como era: silenciosa, ensolarada e cheia de flores.

C.M.Martins💖

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