A chave sobre a mesa...

A última noite em que ele dormiu comigo foi estranhamente tranquila. Não houve lágrimas, acusações ou aquela necessidade desesperada de encontrar um culpado. Apenas ficamos deitados lado a lado, olhando para o teto, como duas pessoas que já haviam dito tudo o que precisavam dizer. Me virei, olhando para ele, e pensei em todas as vezes que imaginei envelhecer ao seu lado. Pensei nas viagens que não fizemos, nos lugares que ainda queríamos conhecer e até nas pequenas discussões sobre coisas insignificantes. Havia carinho. Muito mesmo.

Pela manhã, ele arrumou suas últimas coisas. Eu permaneci sentada no sofá, observando cada movimento. Era estranho ver uma pessoa que havia ocupado tanto espaço na minha vida, caber de repente, dentro de algumas malas. Quando ele terminou, caminhou até a porta e voltou para me abraçar. Eu queria dizer que ele podia ficar. Queria inventar mais uma tentativa, mais uma conversa, ou até uma promessa. Mas alguma coisa dentro de mim, sabia que continuar seria apenas adiar uma dor que já conhecíamos.

Marco colocou a chave sobre a mesa. Fiquei olhando para ela depois que a porta se fechou. Durante muito tempo, aquela pequena chave significou pertencimento. Porém, naquele dia, significava despedida. Ainda hoje, quando penso nele, não sinto raiva. Sinto ternura. E talvez seja essa a parte mais difícil de certas despedidas: quando não temos nada contra quem vai embora. Quando, apesar de tudo, continuamos desejando que a vida seja generosa com aquela pessoa.

C.M.Martins💖

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