O quarto que permaneceu fechado...

Durante vinte anos, mantive fechado o quarto onde meu pai costumava trabalhar. Depois que ele morreu, minha mãe não permitiu que ninguém mexesse em suas coisas. Disse que um dia teria coragem. Esse dia nunca chegou. O quarto permaneceu exatamente como estava: a velha escrivaninha, os livros empilhados, uma luminária torta e um calendário parado em dezembro.

Quando minha mãe também partiu, fiquei responsável pela casa. Passei semanas organizando tudo, separando documentos, fotografias e objetos que precisavam seguir adiante. Cheguei várias vezes diante daquela porta, mas não conseguia abri-la. Havia algo naquele quarto que parecia exigir de mim mais do que simplesmente arrumar gavetas.

Um domingo pela manhã, finalmente entrei. A luz atravessava a janela e iluminava a poeira suspensa no ar. Sobre a escrivaninha havia um caderno. Abri sem saber o que encontraria. Eram pequenas anotações do meu pai, coisas simples: contas, compromissos, nomes de pessoas. Na última página, havia apenas uma frase: "Hoje foi um dia comum. Ainda bem."

Fechei o caderno e chorei. Eu havia passado tantos anos procurando grandes significados em sua ausência, quando ele próprio parecia ter encontrado significado em seus dias comuns. Não transformei o quarto em outra coisa. Retirei algumas coisas, doei outras e deixei a escrivaninha junto à janela. Lembrar de alguém não significa conservar tudo exatamente como está. Significa saber guardar no coração aquela presença.

C.M.Martins💖

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