A fotografia que não rasguei...

Eu mantive uma fotografia nossa durante muito tempo dentro de um livro. Não era uma fotografia especial. Não havia viagem, aniversário ou ocasião importante. Estávamos apenas sentados em um sofá na casa de amigos, sorrindo para alguém que segurava a câmera. Éramos jovens, despreocupados e tão certos de que o futuro nos pertenceria. Talvez seja por isso que nunca consegui rasgá-la.

Lembro-me que passamos meses tentando fazer dar certo nosso relacionamento. Havia conversas que começavam com esperança e terminavam em silêncio. Havia abraços que pareciam pedidos de desculpa e noites em que eu dormia ao seu lado, imaginando se, no dia seguinte, conseguiríamos finalmente voltar a ser quem éramos. Mas ninguém volta para um lugar que já deixou de existir.

O amor ainda estava ali. Eu sentia isso quando ele me olhava, quando me abraçava. Só que o amor havia se transformado em cuidado, gratidão, memória. A chama, os fogos de artifício, os planos, haviam desaparecido. Quando finalmente terminamos, ele perguntou se eu estava certa da minha decisão. Eu disse que não.

Ele sorriu tristemente e respondeu:

— Eu também não.

Foi a nossa última tentativa de honestidade. Meses depois, encontrei a fotografia dentro do livro. Fiquei algum tempo olhando para nós dois. Eu poderia tê-la rasgado. Poderia ter jogado fora todas as lembranças e chamado aquilo de recomeço. Mas não fiz isso. Não consegui. Guardei a fotografia novamente. Algumas histórias não precisam ser apagadas para que possamos seguir em frente. Precisam apenas encontrar um lugar tranquilo dentro da memória.

C.M.Martins💖

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